A criação da 1ª Faculdade de Zootecnia do Brasil deve incluir-se entre as ações intencionais e coletivas mais fascinantes da história da educação brasileira.
Nasceu do idealismo, do bom senso, da maturidade precoce, da vivência provecta e da infatigável persistência de um pequeno grupo de pessoas que sonhava com um futuro melhor para o Brasil.
Dois objetivos foram claros desde a concepção do movimento, em 1963: promover a pessoa humana pelo saber e produzir proteínas e subprodutos animais para incrementar nossa economia e suprir a população de alimento essencial a uma vida saudável. O desenvolvimento integral era a síntese de nosso pensamento.
Economista e sociólogo, muito moço, com 28 anos, já era eu professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, lecionando Sociologia do Desenvolvimento, em vários cursos.
Nasci em Uruguaiana, cidade fronteira com a Argentina e Uruguai, a Oeste do Estado, no pampa gaúcho, com sessenta e cinco mil habitantes à época. Hoje tem cento e cinqüenta mil.
Sua economia, essencialmente primária, detinha os melhores rebanhos de bovinos e ovinos do País, premiados em exposições nacionais e internacionais, com linhagens européias capazes de competir com produtos da região do Prata.
Aos dezoito anos tive de buscar em Porto Alegre chances de seguir meus estudos superiores e trabalhar. Era o caminho possível para jovens vindos de famílias urbanas, modestas, sem propriedades rurais ou fortuna material. Ficar em Uruguaiana, naquela condição, significaria conformar-se com uma vida subalterna, com poucas chances para sobreviver e progredir com dignidade. Na estação ferroviária, ao despedir-me de meus pais, sendo filho único, prometi-lhes, espontaneamente, que lutaria para dotar minha terra de escolas profissionalizantes e cursos superiores. Era preciso ensejar aos jovens que ficavam a oportunidade que eu não tive. Estratégicamente, vislumbrava ser esta a única forma capaz de modernizar estruturas locais, extremamente conservadoras e patriarcais. Só a mudança mental, gestada e consolidada numa cultura racional e superior, permitiria isso. E só esse caminho poderia contribuir para a criação de alternativas próprias à vida democrática. Hoje, com setenta anos, vejo como estava certo. Criar faculdades em Uruguaiana, e em dezenas de municípios, foi uma constante em minha vida. A começar pela primeira faculdade de Zootecnia do Brasil.
Eu comandava a CNEC – Campanha Nacional de Escolas da Comunidade. Em Uruguaiana já havia, em 1961, criado a segunda delas. Hoje, quarenta e quatro anos depois, ela mantém quatro cursos profissionalizantes. Comprova-se, portanto, que em matéria de idealismo, eu não era marinheiro de primeira viajem.
O destino, a vocação e a perseverança fizeram-me, em 1991, Conselheiro Federal de Educação, membro do mais alto órgão da educação brasileira. Lá ajudei a disseminar faculdades e universidades, pelo país todo. Até ali havia liderado a criação de cinqüenta e duas escolas técnicas gratuitas e noturnas em todo o Estado. Viajava, sem remuneração, em fins de semana, dirigindo um jipe, capota de pano, sobra de guerra.
Feita esta introdução, volto a tratar da primeira Faculdade de Zootecnia do Brasil, descritas suas principais motivações e circunstâncias.
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