O prefixo etno, quando associado ao nome de alguma disciplina acadêmica pré-existente (e.g. etno+zoologia, etno+botânica), indica tentativas de articulação do conhecimento local com o conhecimento acadêmico ou formal. Considera-se, nesse contexto, que o chamado “saber local” não é um simples contraponto do saber “científico”, pois também inclui conhecimento cultural e técnico, e está interligado às habilidades sociais e políticas dos povos. Deste modo, o adjetivo “local” satisfaz a necessidade de levar em conta o ambiente local e a participação em estratégias de desenvolvimento, valorizando as soluções técnicas locais, as habilidades e as instituições locais, bem como os esforços para conferir maior visibilidade e articular os problemas vividos por grupos sociais minoritários e marginalizados (Antweiler 1998; Oudwater & Martin 2003; Alves & Albuquerque, 2005).
Em zootecnia, a caracterização das raças é fundamental para que elas possam ser reconhecidas oficialmente, sendo imprescindíveis os estudos de etnologia animal como os de Barba et al. (2002), Delgado et al. (2000), Martínez et al. (2000) e Sanchez et al. (2000). Para que uma raça oficialmente se estabeleça, é necessário identificar e caracterizar os indivíduos a ela pertencentes, o que permitirá a definição do padrão racial. Este padrão é imprescindível para a conservação da raça. Contudo, Rodero & Hererra (2000) salientaram que o estudo das raças zootécnicas não contempla apenas o estado atual de determinada raça; não se dedica apenas a inferir critérios e características para descrever uma raça, pois é também uma ciência histórica que aborda o processo de formação das raças. Para estes autores, o conceito de raça animal é aceitável no âmbito da zootecnia2, embora eles reconheçam que há restrições de outros autores que consideram os agrupamentos raciais como entidades meramente oficiais, mais relacionadas a artifícios e interesses de grupos humanos do que a descontinuidades biológicas objetivas.
No Brasil estudos etnozootécnicos que avaliam explicitamente o saber local em relação às raças zootécnicas são bastante escassos. Os trabalhos de Oliveira et al. (2002; 2006), Ribeiro et al. (2001) e Mazza et al. (1994) representam tentativas de aproximação à abordagem de etnozootecnia aqui proposta, pois enfatizaram e explicitaram alguns aspectos históricos e/ou culturais das populações humanas diretamente relacionadas aos animais em questão3. A maioria dos demais trabalhos de caracterização de grupos raciais no Brasil dão ênfase apenas aos aspectos morfo-estruturais dos animais (Miserani et al., 2002; Zúccari et al., 2004).
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