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Conservação e Melhoramento dos Recursos Genéticos Animais da Amazônia Brasileira

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  1. Pesquisador(a) Embrapa Amazônia Oriental, marques@cpatu.embrapa.br
  2. Médico Veterinário
  3. Pesquisadora CENARGEN
  4. Médica Veterinária Curso PG – Ciência Animal / UFPA
  5. Médica Veterinária Curso PG – Ciência Animal / UFPA / bolsista CAPES

Resumo
Muitas espécies animais da Amazônia estão ameaçadas de extinção ou sofrem forte pressão de descaracterização. Isto ocorre com eqüinos como o cavalo Marajoara e Puruca (Equus caballus), búfalos como o Tipo Baio e a raça Carabao do Brasil (Bubalus bubalis) e com espécies nativas, como o Muçuã (Kinosternon scorpioides). A Amazônia é uma das áreas mais predadas do planeta e a devastação que vem ocorrendo, ainda hoje, contribui para o empobrecimento da biodiversidade, além de interferir na adaptabilidade, desempenho e sobrevivência das espécies introduzidas. No permeio de espécies amazônicas importantes como o peixe-boi, o pirarucu, os jacarés, araras diversas ou de um inseto, que nem foi catalogado pelo homem, há animais de interesse zootécnico que podem desaparecer. Os eqüinos e os búfalos fazem parte dos recursos zoogenéticos do Brasil, na Rede Nacional de Recursos Genéticos – RENARGEN, coordenada pela Embrapa CENARGEN, juntamente com inúmeras raças naturalizadas que compõem o universo da pecuária brasileira, que é a mais diversificada de todo o planeta. Nesse contexto há peculiaridades genéticas importantes, como: o único mini cavalo do Brasil, o Puruca, com características tão próprias e importantes que o fazem enfrentar as adversidade climáticas e geográficas da maior ilha flúvio-marinha do mundo, o Marajó, que abriga em contexto semelhante um dos cavalos brasileiros mais importantes, o Marajoara, não só pela rusticidade, inteligência no adestramento, força e resistência natural, como pela importância genética, pois deve ter grande participação na origem de outros importantes grupamentos de eqüinos da região, ou seja: os cavalos Baixadeiro (Baixada maranhense) e o Lavradeiro (dos campos de Roraima), além do Varzeiro, que domina grande parte das áreas de várzeas de Itacoatiara (Amazonas) até Prainha (Pará); dentre os búfalos há um tipo que não é reconhecido como raça, o Baio, e outro que, apesar de constituir uma raça, ainda hoje presente em todo o Sudeste asiático (o Swamp buffalo), adquiriu características próprias das condições brasileiras. Ambos fazem parte do conjunto de raças naturalizadas em conservação no nosso País. Vale ressaltar que não há, em todo o Brasil, 300 animais Baios ou 500 Carabaos, enquadrando-se na classificação da FAO, como grupos em alto risco de extinção. Existe, ainda, uma tartaruguinha característica das áreas de campo, importante para a gastronomia regional que, se conhecida, pode adquirir também grande importância como animal ornamental. Estas foram as principais razões para a criação e implantação, pela Embrapa Amazônia Oriental, do Banco de Germoplasma Animal da Amazônia Oriental - BAGAM, em 1997, destinado à conservação "on farm" de espécies animais da Amazônia de valor socioeconômico e biológico, que apresentam risco de extinção e/ou descaracterização. Com tais ações espera-se manter as populações ameaçadas num patamar seguro de conservação, municiando a comunidade científica e a classe produtora com informações sobre os genes mais produtivos, além de assegurar a manutenção da variabilidade genética, bem como estudar a biologia das espécies, possibilitando novos estudos e descobertas.

 

Introdução
A Amazônia Brasileira ocupa uma área de, aproximadamente, 4.990.530 km2, representando 59% do território brasileiro e 65% da Amazônia Continental. Das geleiras dos Andes Peruanos até encontrar-se com o mar o Rio Amazonas tem, aproximadamente, 6.577 km de extensão, ou seja, 4,4 vezes maior que a extensão do segundo maior rio do mundo, o Zaire, na África (Marques, 2003).

O Rio Amazonas descarrega no oceano Atlântico 250.000 m3 /segundo de água e sedimentos orgânicos e minerais, equivalentes a 1/5 do total de todos os rios do globo e sua influência se faz notar até quase 200 km da foz em bolsões de água doce e barrenta. Sua largura varia entre 1,8 km (Óbidos, PA) e 20 km (abaixo de Manaus, AM), contudo, na época das cheias, os rios amazônicos, transbordados de seus leitos, avançam sobre a vegetação que cresce em volta de suas margens e alagam uma área de 300.000 km2, que formam o mais extenso ecossistema de áreas alagadas do planeta (Santos, 1995; Teixeira, 2003). São as várzeas da calha do rio Amazonas, de solos riquíssimos e vegetação exuberante.

Apresenta, ainda, contradições climáticas, destacando-se temperaturas que atingem os 40°C, baixando para próximo de 10°C em algumas áreas, com médias altíssimas de umidade (85 a 95%); chuvas fortíssimas em várias regiões e seca em outras, podendo atingir uma pluviosidade de 1000 mm em apenas um mês (Marques, 2003).

Devido sua grandeza natural é uma das áreas mais visadas e a mais predada do planeta. Os recursos genéticos animais têm sofrido gravíssimas ameaças na região amazônica, não só pelo mau uso, mas pelo desconhecimento do comportamento e biologia das espécies. Esses recursos são de grande importância e representam alternativa para a produção de proteínas nobres a baixo custo. Com a implantação de grandes projetos agropecuários na região, associada à agricultura itinerante, a mineração e a exploração da madeira, as áreas de florestas vêm sendo substituídas por áreas, que rapidamente, atingem sérios estágios de degradação. Essa devastação, ocorrida nas últimas décadas, tem contribuído para a erosão genética de espécies da região, causando também, sérios prejuízos ao desempenho e sobrevivência das espécies introduzidas.

Essas foram uma das principais razões para a criação e implantação, pela Embrapa Amazônia Oriental, do Banco de Germoplasma Animal da Amazônia Oriental - BAGAM, no município de Salvaterra - PA, na ilha de Marajó, com o apoio da antiga SUDAM, destinado à conservação on farm de espécies animais da Amazônia de valor socioeconômico e biológico, que apresentam risco de extinção e/ou descaracterização (Marques, 1999 e Marques et al., 1999).

Dentre estas se encontram animais importantes, tanto para uso pelo homem para a alimentação e trabalho, quanto para a biodiversidade de toda a região, destacando-se os búfalos, os eqüídeos, alguns quelônios, diversos peixes e os suínos da ilha de Marajó. Dentre os búfalos, destacando-se esses animais como naturalizados no País, se ressalta o desempenho produtivo para a produção de carne leite e, ainda a utilização para trabalho (Marques & Cardoso, 1993; Marques et al., 1996; Marques et al., 2001; Marques et al., 2002; Marques & Costa, 2001; Albuquerque et al., 2000; Egito et al., 2001; Abreu, et al., 1998 e Ruban, 1996).

No caso dos eqüídeos, o cavalo Marajoara e o mini cavalo Puruca, apesar da importância para a região, as pressões para o melhoramento genético, causadas pelos acasalamentos desordenados, os têm ameaçado, grandemente. O cavalo Marajoara vem sofrendo intenso processo de melhoramento com introdução de outras importantes raças comerciais, visando maior porte e beleza fenotípica, em detrimento da rusticidade, que o adapta às condições climáticas da região (Marques et al., 2001).

Ambos os grupos possuem associações de criadores devidamente registradas no Ministério da Agricultura, ou seja, Associação Brasileira dos Criadores de Cavalo da Raça Marajoara (ABCCRM) e a Associação Brasileira dos Criadores de Puruca (ABCP), ambas com sede em Belém-PA. Vale ressaltar que o Puruca é o único mini cavalo do Brasil. A questão da conservação de germoplasma de eqüídeos vem sendo tratada há muito tempo, no país (Duarte, 1997; Dias, snt; Silva Filho, 2000). No plano internacional há importantes relatos sobre a conservação dos eqüídeos, inclusive de mini cavalos (Sáiz et al., 1996; García, 1996; Cheng & Wang, 1996 e Datillo, 1999).

Os suínos (Sus scrofa) foram introduzidos no Marajó a partir do século dezoito, por missionários jesuítas portugueses, no início da colonização. São de grande importância econômica, pois, juntamente com a caça, o pescado e o extrativismo de frutas, formam a base da alimentação da classe mais pobre. Porém, pouquíssimas referências foram encontradas sobre esses suínos na literatura, dada a característica endêmica da ocorrência desse grupo genético. Na década de setenta houve uma matança da quase totalidade dos suínos da ilha de Marajó, autorizada pelo governo, em virtude de suspeita da ocorrência da Peste Suína Africana (PSA), quase extinguindo esse germoplasma. O que resta hoje ou foi introduzido ou são descendentes de animais que se encontravam embrenhados na floresta naquela época. Métodos de levantamento populacional e de monitoramento de populações nativas devem ser utilizados para o levantamento da população suína da ilha de Marajó (Marques, 2003).

Em PNUD/SUDAM (1997) e CONJUNTURA...(1994), encontra-se que o sistema de criação de suínos na ilha é extensivo ou sistema à solta, sem critério técnico, onde os animais não apresentam mais suas características originais, sem controle sanitário e nutricional, com baixo nível de capitalização dos criadores e baixo custo com alimentação, instalações e mão-de-obra, além de ser adaptável qualquer tipo de ambiente, seja em terra firme ou em várzea.

Assim, todo esse acervo natural necessita ser mantido, catalogado, identificado e caracterizado geneticamente e, o advento das técnicas moleculares possibilitá, também, estudos mais seguros dessas populações, utilizando-se marcadores de DNA. O conhecimento do tamanho ou densidade de uma população é fundamental para manejá-la adequadamente e sustentavelmente. Esta é a maneira mais direta de se identificar as melhores populações naturais para serem manejadas (Caughley & Sinclair, 1994).

Até o momento, os problemas aqui abordados estão longe de serem resolvidos na região, todavia, espera-se, manter as populações ameaçadas num patamar seguro de conservação, municiando a classe produtora com os genes mais produtivos, além de assegurar a manutenção da variabilidade genética, bem como a comunidade científica com informações sobre a biologia das espécies, possibilitando novos estudos e descobertas.

 

Conteúdo

  • Espécies em conservação na Amazônia brasileira: Búfalos, Equinos, Quelônios (Muçuã)

Considerações Finais
O trabalho de conservação genética desenvolvido no BAGAM, na Amazônia Oriental, segue a orientação nacional da Rede de Recursos Genéticos Animais, desenvolvida e coordenada pelo CENARGEN / EMBRAPA, que consta de uma grande rede nacional de recursos genéticos que, no momento, sofre uma grande reformulação para se transformar numa Plataforma Nacional de Recursos Genéticos, com maior amplitude, pois tentará envolver todas as raças de animais naturalizados, dada a importância desses germoplasma para o melhoramento de várias raças nacionais que hoje têm grande importância zootécnica. Assim, a conservação dos recursos genéticos de animais amazônicos se insere num grande programa nacional cujo maior objetivo é, de modo geral, conservar in situ a variabilidade genética de espécies ameaçadas de extinção, visando inseri-las em sistemas de produção local, produzindo informações para a comunidade científica e para os produtores, bem como material genético para manutenção e enriquecimento dos germoplasmas ameaçados.


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